sexta-feira, 10 de junho de 2011

UM DIA DE CÃO (OU DE CADELA, TANTO FAZ)

Acordei às 6:30 e fui direto fazer dois sandubas de pão de forma com ovo frito. Enchi uma garrafa térmica de mate gelado. A roupinha de sempre, um sapatinho baixo pra cansar pouco os pés, um sorriso de “vou ser feliz de qualquer maneira”, entrei no carro e começou minha maratona, meu dia de cão (ou de cadela, tanto faz). Na verdade já tinha começado antes de levantar, pois mal abro os olhos, começo a fazer: a oração da manhã, os exercícios de conscientização do meu dia para atrair somente coisas positivas, uma ligação amorosa com o Criador, uma pré-agenda de compromissos, uma tentativa inútil de alongar os músculos (que já acordam tensos pela noite cansativa de um colchão ortopédico mais duro que o necessário e pelo medo do ladrão), levantar o corpo da cama (aai, uuii, noossa...), uma pontinha de tristeza por não acordar perto de quem eu gostaria. Banho (cremes, óleos, perfumes, tudo para se sentir melhor). E logo estou dentro do meu carro, o possante que está sempre com o tanque na reserva e dando muita preocupação com o “que horas vai enguiçar?” Tudo pronto para meu primeiro dia no meu novo trabalho: vendedora de bolsinhas (com PhDd e tudo!!!). De qualquer forma, estou feliz, me sinto feliz apesar da dureza (literal e literariamente falando) pois me sinto integrada com a humanidade. Claro, com a humanidade quase inteira, que está passando pelas mesmas dificuldades que eu. Só de pensar assim, me sinto protegida e mais próxima das pessoas. Sei e confio que isto é só temporário (só será assim enquanto durar) e por isso me sinto segura.

Será mesmo? Me sinto mesmo segura? E a conta do cartão de crédito, do telefone, da luz, a prestação do carro (tudo em atraso) o empréstimo do banco, a C&A, a costureira. Tudo bem, é assim com todo mundo. E vou pra batalha. Logo na minha primeira visita, do meu primeiro dia, consigo a minha primeira venda! Vendi 12 reais e vou ter um lucro fantástico de 15% (que em termos percentuais é excelente, mas no financeiro...) Segunda visita,, ah 25 reais (uau, melhorou, que legal promessa de triunfo), terceira visita (mais 10 reais) e o telefone toca e minha irmã diz: Óh, vem prá cá que a mamãe levou um tombo, e... Nem deixo ela terminar.

Desligo o telefone e saio correndo (literalmente) com o carro. Nessas horas a gente sempre acha que a pressa pode adiantar alguma coisa. Que bobagem. A pressa sempre nos atrasa. E chego na casa de minha mãe em 10 minutos. O coração aos pulos, a pressão a mil, a cabeça raciocinando, mas o coração em pedaços. Minha mãe, meu único elo afetivo verdadeiro hoje em dia. E por eu achar que é o único, imagina o tamanho que faço dele. O que será que vou sentir (ou não vou mais) depois que minha mãe for embora? Estarei ligada a quem, como, porque? Difícil responder, impossível pensar, inimaginável de sentir. Chego perto daquele ser que eu amo e só dou um abraço, aperto bem ela e peço para ela sentir as batidas do meu coração como estão. E aí ela começa a se sentir melhor. E nesse momento, e em todos os outros parecidos com este, fica mais claro para mim que tudo o que vale na minha vida é o amor.

O amor que sinto por ela, que me aproxima dela, que faz com que ela se sinta mais segura e protegida por mim que sou filha, e eu me faz entender como será o meu futuro, e que me comove, pois só o amor pode me fazer perceber o medo e a angústia que ela deve estar sentindo naquele momento, tão desprotegida – caída no chão, gelada, pulsos fracos, pressão baixa, tonteira , fraqueza muscular e emocional – medo da morte, medo do médico, medo do hospital, medo de não poder mais estar aqui conosco, medo, medo, medo, medo. Sempre o medo. Sempre o amor. O medo chama pelo amor. O amor conhece e reconhece o medo.

Hospital, médico, observação, boas notícias: só uma crise de labirinto. Tomar mais cuidado, não estar andando sozinha, se alimentar melhor, etc.etc.etc., sorriso, abraços, conselhos, remédios, beijos, abraço, fique bem, abraço, estou aqui, abraço, fique tranquila e calma, abraço, está tudo bem.

Hora do pão com ovo e mate. A tarde já está no meio e o meu lucro ainda é pequeno... Não dá para gasolina de amanhã. Mas o meu saldo foi profundamente positivo. Amanhã ainda tenho minha mãe. Ainda tenho a quem amar.

Quando ela não estiver mais aqui, estarei eu. E eu serei a continuação dela. Esse pensamento não me conforta a perda, mas faz eu continuar me sentindo perto dela. E esse pensamento me incentiva a continuar amando. A mim mesma, a ela, a todos os meus dias de cão (ou de cadela, tanto faz), ao meu lucro pequeno. Ao ter que me dividir em 10 para poder sobreviver. Mas sempre amando. Já dizia um grande sábio (ou sábia) que “o amor é maior força curativa do universo, é a cola cósmica”.

E a tarde continua, mais uma loja, outra, outra, chuva, mais chuva, trânsito, gritos no trânsito, insultos desnecessários... Prestação de contas: Consegui ganhar 24 reais (que serão divididos por dois, pois eu tenho uma parceira de trabalho). Está ótimo. Poderia ter sido lucro zero.

E agora, a noite. ir para casa: onde entra ladrão, não tem janela na cozinha, não tem vidro na porta da sala, não tem porta no banheiro, não tem vontade interna de ficar lá, não tem quase nada na geladeira. Mas ir para casa. Lá tem a cama, o banho gelado, os livros, as lembranças, as músicas. Lá tem esperança, saudade, fotografias, filha, netas, tudo lá dentro. Tudo velho, antigo, poltrona surrada, cadeira manchada, livros, livros, poesias, teorias, teoremas, teses, doutorados. Tudo muito antigo. Tudo que consegui manter ainda por perto, não sei por quanto tempo, mas que ilusoriamente me fazem pensar que estou ligada a alguma coisa.

(Eu, 2005)

Nenhum comentário:

Postar um comentário